Segunda onda da erva-mate: Bastidores da reportagem por Flávia Schiochet

Segunda onda da erva-mate: Bastidores da reportagem por Flávia Schiochet

Toda reportagem é um recorte de ângulo e período temporal de um assunto. 

Quando comecei a pensar na matéria que falaria de um novo momento da erva-mate no Paraná, ainda não sabia que recorte seria este, nem se conseguiria, de fato, ter uma história nova para contar.

Assim que voltei a prestar atenção nesse assunto, já fazia três anos que eu ouvia duas fontes repetirem que, apesar da importância da erva-mate para a história do Paraná, sua exploração comercial havia estacionado na produção para o consumo tradicional de chimarrão, um mercado estável, mas que seu potencial de ampliação de mercado era subestimado. 

A constatação dessa dupla não era o suficiente para sustentar um texto jornalístico. 

Em novembro de 2020, uma dessas fontes, o Luiz Mileck, recebeu a aprovação de um projeto seu pela Fundação Grupo Boticário. 

A proposta era modelar e testar um protótipo de secador móvel de erva-mate, um equipamento para ser levado a diferentes sítios e fazendas para beneficiar a planta imediatamente após a colheita. 

A defesa do proponente era que o maquinário daria liberdade de ajuste de tempo e temperatura, bem como secaria as folhas em tempo e temperatura ajustáveis em bateladas muito menores que as da indústria. 

Essa possibilidade permitiria os produtores estocarem a erva-mate em sua forma mais estável (desidratada) e também que a experimentação na secagem fosse feita com mais frequência e controle. 

Quem sabe, disso, sairiam novos perfis sensoriais ou mesmo uma marca própria de pequenos produtores. 

O público visado pela proposta era de produtores de erva-mate sombreada do Paraná, a matéria-prima com maior valor agregado do país, mas que há décadas tem um gargalo no beneficiamento de sua produção – praticamente tudo segue para a indústria, que processa toneladas de uma só vez e mantém um padrão para a oferta de grande escala.

A previsão de teste do secador móvel de erva-mate era para o segundo semestre de 2021, e esta novidade era o suficiente para escrever uma notícia, mas era preciso aguardar a publicação oficial do resultado do edital da Fundação Grupo Boticário, que sairia até dezembro.

#Avaliamate

Algumas semanas depois, Mileck me disse que a Chimatearia estava organizando a Primeira Avaliação Nacional da Erva-mate, com jurados de vários perfis para viverem uma experiência sensorial com a erva-mate, e que o meu se encaixaria por ser jornalista de gastronomia. 

Me inscrevi, fui selecionada, e em fevereiro de 2021 estava degustando as amostras em casa.

A realização do evento foi um bom gancho para ampliar o ângulo da matéria e reunir no mesmo texto as iniciativas do secador móvel e da degustação, e foi aí que comecei, de fato, a apuração.

As entrevistas

Foi no início de março que marquei as primeiras entrevistas para começar a estruturar um texto que refletisse o “novo momento” que se iniciava para a erva-mate. 

Marquei uma conversa com Mileck para pegar mais detalhes do projeto; entrevistei a Lendari Paula e o Félix Pólo, sócios da Chimatearia, para entender como havia sido a organização da degustação e os resultados esperados a partir da ação; e conversei com André Zampier para relembrar a ligação profunda que a economia e política do Paraná têm com a erva-mate desde o século 19. 

Cada um dos entrevistados repassou contatos de outras fontes para que eu pudesse entender melhor questões sobre o funcionamento da indústria nas últimas décadas e saber das pesquisas acadêmicas recém-publicadas, como a tese de Camila Croge (EPAGRI – SC, Coordenação Técnica do #avaliamate)  e a pesquisa de Catiê Godoy. 

Neste ponto, já era possível encontrar alguns paralelos com o desenvolvimento do café especial no Brasil. 

Falei com Georgia Franco, mestre de torra e sócia do Lucca Café em Curitiba, um dos primeiros centros de formação de baristas e mestre de torra do Brasil. 

Com a ajuda de Franco, consegui resumir o histórico dos anos 1990 para 2000 na transformação do café em bebida especial, e para dar um diagnóstico do que o setor de erva-mate poderia explorar no futuro, conversei com o Q-Grader Hugo Rocco, sócio do Moka Clube, um clube de assinatura de cafés especiais criado em 2012.

Nesta primeira semana de apuração, o que eu tinha em mãos já era o suficiente para elaborar questões mais específicas às fontes “oficiais”. 

Comecei a entrar em contato com as representações de entidades como Sindicato Patronal, Câmara Setorial Nacional, Conselho de Gestão do Vale do Iguaçu (onde se concentra a maior produção de erva sombreada no Paraná) e também com pesquisadores de órgãos como a Embrapa-PR, o Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná e Emater-SC.

Enquanto esperava o retorno de algumas pessoas e o encaminhamento de informações e documentos, solicitei uma entrevista com um técnico do Departamento de Economia Rural do Governo do Estado para não cometer erros ao interpretar os dados obtidos no site do IBGE – e também para conseguir navegar com mais assertividade pelas inúmeras tabelas disponíveis no site. 

Foi a última entrevista que fiz antes de começar a etapa de escrever. No total, entrevistei 17 pessoas em duas semanas e levei uma semana recortando e colando trechos e dados em uma estrutura inicial de texto.

O primeiro passo foi listar, em papel e caneta, os pontos mais importantes de cada entrevista. 

Isso me deu clareza para a próxima etapa, também escrita à mão. Sintetizei em uma frase a informação principal que deveria constar em cada parágrafo e encadear essas ideias com anotações sobre as fontes e dados que poderiam entrar em cada um deles. 

Só então voltei ao computador para começar a escrever.

Os quase 18 mil caracteres de texto foram reescritos e editados por mim duas vezes antes de enviar à Roberta Braga, da Literato Comunicação, editora que havia comprado a reportagem. 

A última das minhas revisões resultou em abrir um novo arquivo e escrever quase tudo do zero. A maior dificuldade era contextualizar a história e importância tradicional da erva-mate sem perder o foco na novidade – os novos produtos, métodos e propostas a partir da erva-mate enquanto produto gastronômico. 

Com a chegada das últimas horas do prazo, parei de reler, fechei o arquivo e encaminhei por e-mail com as fotos e legendas. 

Ao final, o texto foi publicado com cerca de 13.500 caracteres, muito mais longa do que eu havia previsto.

Foram mais duas revisões feitas no arquivo em pdf antes de a revista ir para a gráfica. 

No total, foram quase cinco semanas de trabalho, desde a degustação até a impressão em abril. 

A reportagem foi publicada na editoria de gastronomia Bom Gourmet da revista Pinó, distribuída mensalmente aos assinantes da Gazeta do Povo, em Curitiba, e foi reproduzida também no portal on-line do Bom Gourmet, onde está disponível para leitura. “

Por: Flávia Schiochet

Quem é Flávia Schiochet ?

Flávia Schiochet é Jornalista com Pós-graduação em Jornalismo Literário e Mestrado em Turismo. 

Cobre gastronomia, pesquisa sobre alimentação vegetariana e ministra cursos livres sobre construção de sabores para paladar vegetariano, leites vegetais para baristas e como escrever sobre comida. 

Em abril, publicou uma reportagem no Portal Bom Gourmet, da Gazeta do Povo – PR, sobre a Segunda Onda de Consumo da Erva-mate, impulsionada por ações como a Primeira Avaliação Nacional da Erva-mate.

A Flávia Schiochet foi uma das degustadoras na Primeira Avaliação Nacional da Erva-mate, #avaliamate, realizado pela Chimatearia (www.chimatearia.com.br) e com a coordenação técnica da EPAGRI (Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina), onde foram avaliadas nove categorias de erva-mate. 

Neste evento inovador para o setor ervateiro, foram mais de 236 mil pessoas impactadas nas redes sociais só da Chimatearia, sem contar com tudo o que foi publicado em dezenas de perfis nas redes sociais e matérias publicadas em jornais e revistas.

Além disso, o evento contou com o patrocínio dos Sindimates do RS, PR, SC e Catanduvas SC e apoio de 9 Instituições Setoriais.

Para tornar possível esse evento foi fundamental criar um ambiente colaborativo entre os organizadores, as empresas técnicas e o setor ervateiro em torno de um único objetivo: Desenvolver uma cultura de experiência com a erva-mate através de depoimentos de especialistas no segmento de alimentos gourmet. 

Nesse sentido, profissionais Sommeliers de café, chá, cerveja, vinho, azeite de oliva, chefes de cozinha e jornalistas da área, como a Flávia Schiochet, e também representantes designados das entidades setoriais e de pesquisas técnicas, foram os degustadores e avaliadores das amostras inscritas dos estados RS, SC, PR e MS, e trouxeram as suas percepções sensoriais sobre a erva-mate.

Qual a importância das percepções sensoriais da erva-mate? 

A erva-mate é o resultado de todo um trabalho diferenciado desde a escolha da muda, tipo de cultivo, nutrição do solo, sombreamento, altitude, cuidados no pós-colheita, processo de secagem, estocagem e beneficiamento.

Da mesma forma, cada erva-mate se diferencia por características únicas, e essa variedade comunicada ao consumidor agrega valor e potencializa o desejo de experimentar observando as diferentes percepções.

Analogamente, como seria o consumidor matelover encontrar percepções sensoriais daquela erva-mate descritas na embalagem como acontece com os cafés especiais?

Notas frutadas, florais, herbáceas?

Amargor, doçura, adstringência, equilíbrio?

E assim se potencializa a Segunda Onda da Erva-mate!

Você quer saber mais sobre toda a história da entrevista ? 

Confira no nosso canal sobre o podcast. Segue abaixo:

Podcast #6 YouTube

Veja a seguir a reportagem completa no portal online do Bom Gourmet: Segunda onda da erva-mate toma um corpo no Sul do Brasil

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